segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Notícias de Urgence 2

Gente... realmente melhor ser pobre estrangeiro que rico no Brasil! Imagine que mendigo canadense é tão chique que fala francês E inglês! Coisa de louco!

De louco mesmo, no bom sentido.

Hoje começamos nosso trabalho por aqui. Depois de Sérgio e Robinho terem sido presos no México (tiveram que aguardar o vôo por 7 horas em uma 'sala especial' com direito a segurança particular), uma de nossas caixas com papelão foi estraviada. Bem a que continha fiação.

Tudo bem, na real quando eu e Pierre estávamos no aeroporto para buscá-los já recebemos um telefonema da Annie dizendo que a mala já havia sido encontrada. Esqueceram só de avisar aos dois que ficaram ali procurando a mala. Sem falar inglês, NEM francês, bem diferente dos mendigos daqui.

Bom, mas voltando... nosso começo foi muito bom. A Saint James Church é uma igreja presbiteriana que tem um trabalho fantástico com os homeless. Pelo que consegui ver, eles tem livre entrada e saida dali. Servem comida, eles têm um ateliê de artes, um salão de jogos e leitura. O interessante é que os motivos que os levaram à rua são semelhantes e diversos ao mesmo tempo do Brasil. Excluindo a questão 'drogas' que é o universo de alguns, o segundo motivo percebido é a 'piração'. Piração mesmo.

Só hoje conversei com um senhor que jurava ser fugitivo de guerra e que na semana passada estava na guerra de Israel e fugiu pela Turquia. (Sim, meu inglês é bom e eu entendi perfeitamente o que ele estava falando). Depois foi a vez de um famoso ator de cinema e tv. Dentre eles, um cabeludo que eu não descobri nada, pois ele me olhava e falava: 'What´s your name? ' e eu: 'Laura'. Ele ria e saia de perto. Ai voltava e a historia se repetia. Foi assim a tarde toda.

Em um momento apenas sai e fui com o Sérgio dar uma entrevista para o La Presse, que é o jornal mais importante daqui. Foi muito bom. Inclusive porque eu peguei um contatinho... hehehe.

veja algumas fotinhas aqui no Picasa...

Pra marofar:

"O que o trabalho ensina, é que do nada a gente transforma. E é isso que a gente veio fazer aqui," Sérgio Cezar - o arquiteto do papelão.

domingo, 22 de novembro de 2009

Noticias de Urgence.

(esse computador nao faz acentos muito bem...)

Newark me fez lembrar de algo que eu sempre soube: New York nao faz parte dos estados Unidos. Ponto. Sei que falo isso de um aeroporto internacional, onde se pode encontrar gente de todo o mundo, mas a maioria dos voos ali eram domesticos. E por isso que eu amo essa cidade. (Embora tambem saiba que Newark e New Jersey, mas, o que e um riozinho...)
Minha constatacao comecou cedo pela manha quando nao recebia resposta da minha irma que mora nos Estados Unidos e passeava pela cidade se ela iria ou nao me encontrar para um 'breakfast'. A resposta curta e rapida veio rouca. Eram 5h30 da manha. ' Ja voltei pra casa Lala'.
Mas e claro, eu deveria ter elmbrado que ela mora nos estados Unidos e nao NY. E afinal, faz so alguns meses que a gente nao se ve, ne...
Em seguida fui esperar meu voo. No salao de embarque outras comprovacoes. O elegante senhor com umterno muitissimo bem cortado, chapeu panama e um rosto familiar nao me parecia um americano tipico. Foi pensar isso que ele sacou o celular e disse ' Hola Maria!' . E cubano.
O gatinho sentado atras d emim, esse sim e americano tipico. Tipico nao e essa olhada que ele ta me dando. Medo. Tiros em Columbine....
Na minha frente uma francesa provavelmente mae solteira com um moleque de uns 8 anos que esta enchendo uma bexiga e esvaziando-a olhando pra minha cara. To louca pra ir la estourar na cara dele, moleque pentelho! Atras deles uma familia de indianos. Mae, pai, um moleque de uns 4 anos e outro de nao mais que 1 e meio. esse de 4 anos... que folego! O coitado grita feito nao sei o que!
E no meio disso tudo, uma senhora dando um belo escandalo em portugues (tentando gesticular com uma base de verbo 'to be'). Finjo que nao falo o idioma. Eu hein, ser envolvida em escandalos... tenho que preservar minha reputacao internacional!

sábado, 21 de novembro de 2009

Isso é que é dia da consciência, hein!


Obama recebe um abraço na korea. Capa do nyt de 20 de dezembro.

La cucaracha! (*ou quando Gregor Samsa pegou uma caroninha com a gente...)

Outra noite, indo para a balada, uma singela homenagem à Clarice Lispector e Kafka:

" Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora,um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? - como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? - no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem “adeus”, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas..."
Clarice Lispector - "Felicidade Clandestina"

* Gregor Samsa é o personagem principal do livro 'A Metamorfose' de Franz Kafka onde ele narra a história de um homem que virou barata.




Uma barata chamada Kafka do Inimigos do Rei!

No vídeo: Rafita, Cocó e Lalá.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Last Night Jairzão saved my life!

Ontem, munida de meus amigos, tive a certeza de presenciar um momento se não histórico, único. Não sei se ele faz isso sempre. Eu pelo menos nunca havia visto, mas, com certeza, dada a importância emocional e mais uma vez histórica de letra e música, 'Arrastão' já tenha sido interpretada outras vezes em circunstâncias parecidas. E provavel que por ele mesmo.
A platéia não tinha mais que 50 pessoas. O Na Mata café, que dificilmente fica vazio, parece ter sido atingido em cheio pela Lei Antifumo. Era plena 4a. feira e o Jair Rodrigues (mais uma vez ele), subiu no pequeno mas gabaritado palco para uma 'canja'. Antes, obviamente, tiramos outra foto.
Primeiro cantou seu pout-pourri de praxe mas nem por isso menor. Depois, começou:
- Hoje eu queria cantar uma música aqui...(silêncio)... é que eu fiquei pensando muito nessa música e numa pessoa, numa pessoinha que era desse tamanho (mede seu cotovelo) mas que no palco ficava deste tamanho (abre os braços). Na década de 60 eu e ela tivemos um programa que se chamava 'O Fino da Bossa' (na Tv Record).... que era um sucesso tremendo.... Quer ver só... eu tenho certeza que agora que eu vou cantar essa música ela vai estar aqui nesse palo comigo. (Virou-se para o guitarrista) Me dá uma nota... um si-bemol

"Eeeei, tem jangada ao mar... ei, ei, ei... la vem vindo arrastão...."

Uma emoção de gerações tomou conta de mim. Imediatamente todas as histórias dos meus pais, tios e avós sobre os Festivais de Música, os programas musicais, as músicas de resistência, Elis Regina.... Tudo isso estava ali, naquela hora, naqueles minutos, tudo sintetizado na minha frente. Tudo passou como um filme de uma vida que eu não vivi, só ouvi. Literalmente.
Toda aquela ovação dos auditórios para mais de mil pessoas, toda aquela potência musical, vocal, intelectual e seja lá mais o que for... e eu, uma previlegiada de fazer parte dos seletos que puderam ver e entender isso.

Salve Jair!

Outraveiz!


Balanço de amor é assim!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SOBRE O QUE DEIXAMOS AQUI....

A Beta, que é leitora do blog, deixou outro dia um comentário interessante. Ela colocou mais ou menos assim (podem conferir no post abaixo): 'porque a humanidade passa por esses vexames de seguir esses tiranos ridículos para só se tocar depois, quando já é tarde?'.
Achei melhor respoder ou melhor, continuar a discussão via post, do que uma simples resposta, pois, se trata de um assunto importante realmente. Essa discussão tem inclusive, que estar sempre em pauta, para que estejamos sempre pensando no assunto. Principalmente para que tentemos evitar novamente ditaduras como essas.
Outro dia, houve uma grande comemoração no Japão pelos 20 anos de ascensão do imperador Akihito. Nos desfiles via-se principalmente jovens e crianças, e o imperador comentou ter grande preocupação com eles pois teme que esqueçam o que representou o Japão na Segunda Guerra e a Segunda Guerra para o Japão. Basta lembrar de dois episódios que marcaram a história da humanidade: as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.
Há que se pensar em cultura e educação par não deixar fatos como esses passarem em branco na formação dos cidadãos de qualquer local do mundo. Não pense que pimenta nos olhos dos outros é colírio porque não é. Do mesmo jeito que caiu para ele, cai para você também.
Mais uma vez eu acredito nisso: Educação!
Educação para superar preconceitos e entender os conceitos. Educação para ter bons modos e discernimento. Educação para entender os fatos. Educação para ter disciplina e, como dizia aquele rockeiro cult-rebelde de Brasília nos anos 80: 'Disciplina é Liberdade'.
Meu pai, que é historiador e jornalista sempre diz: "Saber o passado para entender o presente e prever o futuro".